sábado, 25 de agosto de 2007

A última semana

A professora passou uma tarefa especial aquele dia. Ela pediu que nos separássemos em duplas e explicou:

- Vocês agora irão andar pela escola, recolhendo donativos para as crianças carentes. Montem slogans, consigam o dinheiro.

Minha dupla foi minha namorada, que inventou o seguinte slogan antes mesmo de sairmos da sala.

- Seu dinheiro pra gente ajuda uma criança carente.

Começamos a andar pelo colégio, e encontramos duas crianças sentadas num banco. Eram duas meninas, que tinham uma expressão séria. Apontei uma caixa para elas, e antes mesmo que minha namorada citasse seu pedido, as crianças depositaram, uma dois reais e outra um real dentro da caixa, sem nem mesmo levantar os olhos para nós. Agradecemos e continuamos nossa coleta.

As coisas continuaram assim. As crianças estavam sendo caridosas, mas dava a impressão que alguém as forçava a serem assim.

Quando nossa caixa estava abarrotada de trocados, resolvemos voltar para sala.

No caminho para sala, passando por um corredor, vi duas crianças sentadas num banco. Tão pertos uma da outra que pareciam ser irmãos siameses.

Uma das crianças era uma menina, aparentemente de 6 anos, a outra, um menino, com não mais de 1 ano.

A menina chorava.

Abaixei-me para ficar na altura dela, e disse:

- Hey pequena, calma, não precisa chorar. Qual é o problema, por que você está chorando?

A menina não me respondeu. Nem ao menos levantou o olhar para mim.

Virei-me então para o menino e pedi:

- Você sabe por que ela está chorando?

O menino então abriu um pequeno e sinistro sorriso, pulou para o chão, e no mesmo momento eu soube que aquela criança iria me matar.

Segurei o menino pelo peito e o comprimi contra a parede. Ele agora não era maior que um bebê e minha mão podia cobria praticamente todo o seu peito.

Olhei para os olhos dele e vi que não eram olhos como os nossos. Havia uma pele encobrindo metade dos seus olhos, deixando apenas perto do nariz um pequeno espaço aberto, por onde se podiam ver pequenos olhos negros e maliciosos.

Ele me encarava, ainda com aquele ligeiro sorriso no rosto.

Virei-me para a menina, e ela também não passava de um bebê agora, com a mesma fisionomia do irmão. Segurei também e a prensei com minha mão esquerda contra a parede. Assim mantive os dois presos, ambos olhando para mim, me transmitindo a sinistra certeza de que eu não os poderia segurar para sempre, e que quando os soltasse, seria o meu fim.

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