segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Acerto de contas

Além da minha vontade e de meus motivos pessoais, existia também uma ordem. E foi atrás dessa ordem que me escondi, fingindo ser esse o real motivo. Pensei que isso me livraria da culpa e das dúvidas sobre meu caráter, mas na verdade era uma desculpa. Eu tinha que matar alguém, não sabia bem o porquê, mas sabia quem e como.
O lugar era bem conhecido para mim, como se fosse minha casa. Na verdade era a antiga casa do meu avô, num lugar isolado, no alto de um morro. Uma casa de madeira cercada pela mata virgem. O vizinho mais próximo morava a mais de 1 km abaixo do morro, o que me dava tempo e segurança.
Estávamos nós três na casa velha e fria. O barulho da chuva no telhado e a luz fraca do ambiente era um convite para o sono. Eu me esquentava tomando um chá de mate, para relembrar os bons tempos. Ela estava no sofá velho, esparramada como possível, assistindo qualquer programa na TV só pra se manter acordada. E o velho, ah, esse fez bem o seu papel. Talvez fosse o peso da idade, ou apenas estava cansado de não fazer nada, e foi pra cama mais cedo. "Perfeito !".
Esperamos o tempo necessário pra que ele dormisse, "Quanto menos trabalho melhor" pensei comigo.
Entrei no quarto, e ela me seguiu. Havia pouca luz, mas a vi parada perto das pernas do velho. Peguei um travesseiro e, sem cerimônia, fiz o que precisava ser feito.
Ainda não lembro o motivo, ou o que ele fez contra mim. Com certeza existia a ordem, mas eu só a aceitei por vingança. Era um acerto de contas pessoal, e ele pagaria com a vida.
Quando apertei o travesseiro contra o rosto do velho, que acordou num susto. Tentou escapar, se debatendo na cama. Apertei o travesseiro com mais força, enquanto ela segurrava seus pés. Ele não poderia escapar.
Foi assim que fizemos, simples e eficiente. Sem sangue ou chance para o azar. Os gritos surdos e abafados de desespero foram ficando mais fracos. Talvez meu ultimo momento de felicidade naquela noite, foi quando pensei no arrependimento dele por ter confiado em mim. Dei um breve sorriso, que a noite fez o favor de esconder.
E derepente tudo se acalmou. A chuva forte no telhado me acusava, e o corpo na cama era um novo fardo.
Agora eu sentia a culpa de um assassino. "Deus, que sensação horrível", pensei sem querer, mas acho que Ele não me escutou. Algo antes inimaginável para mim, agora era real, doloroso e cruel. Minha vida nunca mais seria a mesma.
"Vão perguntar por ele", "Sabem que ele viria para cá".
Se disser que não o vi, acreditarão em mim ? Vou ficar nervoso ? Minhas tremedeiras vão me denunciar ?
Recobrei a consciencia logo. "Vou ter tempo de pensar nisso depois" - pensei comigo - "Mas agora tenho que me livrar dele".
Não seria necessário esconder a verdade se as possoas fossem mais compreenssivas. Mas alguns tabus resistem, e eu tinha que esconder o corpo. Como vou explicar um assassinato ?
Minha mente voltou a ficar confusa, viajando e me dizendo coisas sem sentido. Era como se me levasse para fora do mundo por algum tempo.
Agora era a chuva fria que me tirava desses pensamentos. Eu já estava perto do local onde enterraria o corpo. Havia andado muito, da casa até aquele local perto da mata. O caminho era por uma estrada de barro íngreme e tortuosa. Felizmente eu estava tão distraído, que não percebi já ter feito todo aquele caminho. A chuva fria realmente me incomodava, assim como as folhas largas do caité, que jogavam agua fria no meu corpo cada vez que eu as tocava - Merda!.
O barranco molhado dificultou as coisas para mim. Tive que puxar o corpo quase que sozinho, pois ela fazia pouco esforço para empurrá-lo até mim. Mas eu sou o homem, e essa era minha parte. Ao menos era o que ela esperava de mim.
Ela ficou me esperando perto do barranco. -Vou enterrá-lo sozinho - e puxei o corpo mata adentro. Meu corpo se ocupava carregando o primeiro crime, mas minha mente já se preocupava com o segundo.
"Sou mais forte, mas mesmo assim agora vai ser mais difícil, pois vou ter que fazer sozinho".
Ela não tinha conversado comigo naquela noite, parecia-me triste. "Será que ela sabe ?".
Eu não podia deixar testemunhas, e ela seria a próxima a pagar por ter confiado em mim.
Agora sim era uma ordem.

sábado, 25 de agosto de 2007

A última semana

A professora passou uma tarefa especial aquele dia. Ela pediu que nos separássemos em duplas e explicou:

- Vocês agora irão andar pela escola, recolhendo donativos para as crianças carentes. Montem slogans, consigam o dinheiro.

Minha dupla foi minha namorada, que inventou o seguinte slogan antes mesmo de sairmos da sala.

- Seu dinheiro pra gente ajuda uma criança carente.

Começamos a andar pelo colégio, e encontramos duas crianças sentadas num banco. Eram duas meninas, que tinham uma expressão séria. Apontei uma caixa para elas, e antes mesmo que minha namorada citasse seu pedido, as crianças depositaram, uma dois reais e outra um real dentro da caixa, sem nem mesmo levantar os olhos para nós. Agradecemos e continuamos nossa coleta.

As coisas continuaram assim. As crianças estavam sendo caridosas, mas dava a impressão que alguém as forçava a serem assim.

Quando nossa caixa estava abarrotada de trocados, resolvemos voltar para sala.

No caminho para sala, passando por um corredor, vi duas crianças sentadas num banco. Tão pertos uma da outra que pareciam ser irmãos siameses.

Uma das crianças era uma menina, aparentemente de 6 anos, a outra, um menino, com não mais de 1 ano.

A menina chorava.

Abaixei-me para ficar na altura dela, e disse:

- Hey pequena, calma, não precisa chorar. Qual é o problema, por que você está chorando?

A menina não me respondeu. Nem ao menos levantou o olhar para mim.

Virei-me então para o menino e pedi:

- Você sabe por que ela está chorando?

O menino então abriu um pequeno e sinistro sorriso, pulou para o chão, e no mesmo momento eu soube que aquela criança iria me matar.

Segurei o menino pelo peito e o comprimi contra a parede. Ele agora não era maior que um bebê e minha mão podia cobria praticamente todo o seu peito.

Olhei para os olhos dele e vi que não eram olhos como os nossos. Havia uma pele encobrindo metade dos seus olhos, deixando apenas perto do nariz um pequeno espaço aberto, por onde se podiam ver pequenos olhos negros e maliciosos.

Ele me encarava, ainda com aquele ligeiro sorriso no rosto.

Virei-me para a menina, e ela também não passava de um bebê agora, com a mesma fisionomia do irmão. Segurei também e a prensei com minha mão esquerda contra a parede. Assim mantive os dois presos, ambos olhando para mim, me transmitindo a sinistra certeza de que eu não os poderia segurar para sempre, e que quando os soltasse, seria o meu fim.

O pacto das águas

Eu estava parado na porta de saída de nossa casa. A não mais de 30 cm dali havia uma enorme lagoa.

Estava pescando com uma isca artificial, uma zara, que fazia movimentos de ziguezague pela superfície da água.

Após vários arremessos sem pegar nenhum peixe, comecei a trabalhar a isca logo ali na beira, para ver como era exatamente o movimento que ela fazia na água.

Meu irmão parou do meu lado e ficamos ali, olhando a isca ziguezaguear pela água.

Preparei-me para um longo arremesso, e assim que joguei a isca, ela passou por cima do telhado. Meu irmão comentou que ela não iria chegar na lagoa, e que iria cair em cima do telhado. Mas por não mais que um “por pouco” ela caiu na água.

Com alguns movimentos, liberei a linha das telhas e comecei a trabalhar a isca.

De repente, senti alguma coisa puxando a linha, e quando senti que a isca estava firme em algo, dei um puxão mais forte. Um peixe havia sido fisgado.

Uma briga se iniciou. Não sabia que peixe era, pois ele se mantinha no fundo da lagoa.

Então, ele subiu um pouco e pudemos ver que era um peixe de cores avermelhadas. Do outro lado da lagoa minha mãe gritou. È uma carpa, e tem algo atrás dela.

Vi um borbulhar na água e alguma coisa engoliu a carpa inteira, juntamente com a isca.

Continuei recolhendo a linha, e quando o animal estava perto da beira, meu irmão pulou na lagoa, ergueu o animal exausto em seus braços e o jogou para fora da lagoa.

Vimos então que se tratava de um leão-marinho.

Minha mãe gritava para não matá-lo e eu respondi:

- Não quero que este bicho continue comendo nossos peixes.

Corri para dentro de casa e peguei uma faca, quando voltei o leão-marinho havia se tornado uma criança, que aparentava ter 2 anos. Era totalmente sem pêlos ou cabelo, e branca como gesso, havia sondas em seu nariz.

Ela estava se asfixiando, sua boca abria e fechava, seus olhos viravam, procurando alguma coisa.

Minha mãe gritava, agora mais longe, de algum lugar que não podia ser vista:

- Coloque ela na água, ela precisa respirar.

Eu não queria, com medo que ela comesse os peixes, então, a peguei no colo e a levai até o banheiro, abri a torneira e coloquei seu nariz embaixo da água. Ela respirou por um tempo, então olhou para mim com gratidão, e me deu um abraço. Um abraço tão bom que o sinto até hoje.

Com ela ainda no colo, peguei o telefone, e tentei ligar para alguém que não existia. Fiquei desesperado quando a criança voltou a se asfixiar.

Enchi um copo d´água, ela enfiou o nariz dentro e respirou mais algumas vezes. Então tudo se apagou.

Do alto eu me vi com a criança no colo, no banco de traz de um carro dirigido por meu irmão. Estávamos numa auto-estrada num deserto, e o eu lá no carro, olhava com preocupação para traz, enquanto tentava acalmar a criança.

A Semente do Mal

Andando numa rua de terra, eu e mais 2 amigos. Era algum lugar no interior, andávamos com pressa, com medo de alguma coisa. Olhei pra traz, e quando voltei a olhar pra frente, me deparei com uma mulher.

Ela era um tanto velha, eu daria 45 anos. Ela me disse:

- Agora que você passou por esta rua, vai me fazer um favor.

Oferecendo-me algo embrulhado numa toalha branca ela continuou.

- Pega isso e leva rápido. Corre, corre agora, e cuidado com as corujas, elas querem comê-lo.

Eu peguei o tal embrulho, e o abri. O que eu vi aumentou muito a minha pressa. Havia no embrulho uma criança, de uns 15 cm apenas. Ela tinha minúsculos dentes, e estava devorando a própria mão.

Corri pelas ruas, passei por lugar conhecidos, e me vi em frente a um portão de tela. Entrei.

A saída era logo à direita, mais um portão de tela. Ao abri-lo olhei pra traz, e então pro alto.

Lá em cima, num poleiro, estava pousada uma coruja do tamanho de um homem, que não fez menção de atacar.

Fechei este segundo portão, e me vi parado em frente a uma ave negra, parecida com uma ema, que emitia um horrível som, como um grito sufocado. Espantei-a para traz, e vi logo a frente, outro portão.

Na metade do caminho, percebi que a negra ave se encontrava logo atrás de mim.

Parei.

Ela esticou a cabeça por sobre o meu ombro, e com o bico abriu o embrulho.

Mantive-me imóvel. A criança no embrulho já estava devorando a metade do seu braço.

A urgência voltou a me açoitar. Sem medo da ave, corri até o portão e o abri.

Estava numa casa conhecida. Estava na casa de minha tia.

Procurei por ela por todo o terreno, até que a ouvi me chamar não muito longe dali.

Corri até ela, passei por meu falecido avô, que sorridente, olhava para mim. Entreguei a criança, que já estava com os dois braços e os lábios devorados à minha tia.

Esta, dando as costas pra mim, foi-se afastando murmurando: - nunca vai ser o suficiente.Vai acabar se devorando também...